Notícias do setor
21/05/2013
Gás de xisto, uma nova revolução energética?

Autor(es): JOSE GOLDEMBERG
O Estado de S. Paulo - 20/05/2013
 
 Revolução Industrial teve início   no fim do século 18 e foi baseada no uso de carvão na  Inglaterra, com suas amplas reservas desse mi¬neral, liderou a revolução. Com o correr do tempo, contu¬do, o petróleo começou a subs¬tituir o carvão por causa de suas características mais atraentes, como ser líquido e mais fácil de transportar. Final¬mente, em meados do século 20, o gás natural, que é mais lim¬po, começou a dominar o cená¬rio energético.
O que vemos aqui é a confir¬mação do malicioso comentá¬rio atribuído ao secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de que “a Idade da Pe¬dra não acabou por falta de pe¬dras”, mas pela descoberta de que metais eram melhores pa¬ra fazer machados (ou lanças) do que pedras.
Hoje, no mundo, o carvão re¬presenta 26% do consumo de energia; o petróleo, 32% e o gás natural, 20%. O petróleo é ainda dominante, mas a produ¬ção mundial está se concen¬trando no Oriente Médio por¬que nos Estados Unidos (o maior consumidor mundial) e na maioria dos demais países ela está caindo.
Os Estados Unidos impor¬tam do Oriente Médio metade do petróleo que consomem (cerca de 10 milhões de barris por dia), a um custo de mais de US$ 300 bilhões por ano, e não são poucos os que acreditam que as guerras naquela região do mundo (principalmente no Iraque) têm que ver com a ne¬cessidade de obter garantias de fornecimento por governos mais amistosos.
Daí a importância que discus¬sões sobre “independência energética” tem nos Estados Unidos e que é prometida por todos os governos desde os tem¬pos de John Kennedy e Richard Nixon, por volta de 1960. Essa independência nunca foi alcan¬çada e, ao contrário, o que au¬mentou foi a dependência das importações de petróleo do Oriente Médio.
Eis que desenvolvimentos tecnológicos nos últimos dez anos estão mudando drastica-mente esse cenário, com a ex¬ploração do gás de xisto. A possibilidade técnica de usar esse gás é conhecida há muito tem¬po, mas o custo de exploração só a tomou viável nos últimos anos. A partir do ano 2000 hou¬ve uma “explosão” no aumento da produção: em 2000 o gás de xisto representava 1% do gás na¬tural produzido nos Estados Unidos, em 2010 eram 20% e existem previsões de que em 2035 serão quase 50%.
Com isso os Estados Unidos, que até recentemente importa¬vam gás, estão começando a ex¬portar. Além disso, os preços do gás caíram drasticamente nesse país, que está importan¬do menos petróleo, uma vez que aquele combustível vem substituindo derivados do pe¬tróleo tanto na indústria quan¬to no transporte.
Se a produção de cada poço não passar de 15 ou 20 anos, há dúvidas sobre tal possibilidade.
Havendo mais petróleo dis¬ponível no mundo, os seus pre¬ços tenderão a cair, tomando inviáveis projetos para sua pro¬dução, muito caros. Até a explo¬ração do pré-sal no Brasil pode¬ria ser afetada por essa queda de preços.
Estamos, pois, diante do que poderá ser uma nova revolução energética e da ascensão de uma “era do gás”, coíno foi a do carvão no século 19.
Quão realista, todavia, é essa possibilidade?
Xisto é uma camada de mine¬ral situada a três ou quatro qui¬lômetros abaixo da superfície do solo, na qual gás se encontra aprisionado. É preciso “fratu¬rar” o xisto para libertar o gás, o que é feito com jatos de água a alta pressão, a qual se adicio¬nam certas substâncias quími¬cas. É nessa área que muitos progressos tecnológicos ocor¬reram entre ôs anos de 1980 e 2000. Existem camadas de xis¬to no subsolo em muitos países do mundo, o Brasil incluído.
Há, porém, problemas para a sua utilização, que são de diver¬sos tipos:
•Viabilidade econômica, que depende do tamanho da reserva de gás;
•  duração da produção de gás, uma vez que os depósitos de xis¬to são finitos;
•  problemas regulatórios na
autorização para perfurar poços;
•  e problemas ambientais. Nos Estados Unidos houve uma combinação favorável de fa-tores que permitiu o rápido su¬cesso da exploração. Em primei¬ro lugar, naquele país o subsolo é propriedade do dono da terra e a decisão de perfurar é dele; no Brasil, por exemplo, o subsolo é da União e aexploração exige au¬torização do governo federal. Em segundo lugar, as exigências ambientais eram poucas no iní¬cio da exploração e existiam grandes depósitos de xisto.
E essa combinação que expli¬ca por que num curto período de dez anos foram abertos cerca de 20 mil poços de gás de xisto nos Estados Unidos. Mas é pouco provável que todas essas condi¬ções favoráveis se repitam tanto na Europa como em outras par¬tes do mundo. Problemas am¬bientais já levaram até os Esta¬dos de Nova York, da Pensilvâ- nia e do Texas a introduzir regu¬lamentações mais exigentes. Na França a exploração de gás de xis¬to foi proibida.
Os problemas ambientais ori¬ginam-se no fato de que grande quantidade de água tem de ser usada, misturada com areia e um “coquetel” de. substâncias químicas (cuja composição tem sido mantida confidencial pelas empresas) para “fraturar” o xis¬to. Cerca de 50% a 70% da água injetada é recuperada e trazida de volta para a superfície, onde é colocada em lagoas que podem poluir o lençol freático. Além disso, o gás liberado do xisto não é metano puro, vem acom¬panhado de nitrogênio (que não queima) e de várias impurezas, como sulfato de hidrogênio (que é tóxico e corrosivo), tolue- no e outros solventes.
Outro problema que lança dú¬vidas sobre a realidade de uma revolução na área de gás, causa¬da pelo uso de gás de xisto, é que a produção de cada poço não de¬ve ultrapassar 15 ou 20 anos. Se esse for realmente o caso, não estamos de fato diante de uma “revolução”, mas talvez de uma “bem organizada campanha de relações públicas”, como decla¬rou recentemente Alexei Miller, presidente da Gazprom, a em¬presa russa que é a maior produ¬tora mundial de gás.
PROFESSOR EMERITO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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