Autor(es): Por Lucinda Pinto, José de Castro e Aline Cury Zampieri | De São Paulo
Valor Econômico - 24/06/2013
A oscilação de um único ativo está no epicentro da forte correção de bolsas de valores, câmbio e títulos de renda fixa pelo mundo: o juro do T-note, papel do Tesouro americano de dez anos. O rendimento desse título, parâmetro para o nível de juros do resto do mundo, saltou de 1,60% no começou de maio para 2,53% agora - mudança que impactou o preço dos ativos mundo afora.
Isso ajuda a explicar as perdas que afetaram os mercados emergentes, por anos o destino do capital que buscou boas oportunidades de retorno. O dinheiro que entrou, agora sai para cobrir prejuízos nos mercados desenvolvidos.
O estrago é geral. Com a possibilidade de o Fed (banco central dos EUA) reduzir seu programa de estímulo monetário, o dólar vai ganhando força. Os investidores, que estavam aplicados em renda variável, voltam a comprar renda fixa, e os papéis do Tesouro americano despontam como os preferidos.
Especialistas lembram que esse reposicionamento, que gera perdas para todos, afeta o Brasil sem que antes tivesse havido uma melhora firme dos ativos locais, como ocorreu no México.
"Existe um clima de frustração com o Brasil, os investidores tiveram expectativas elevadas com o país e agora se deparam com um crescimento decepcionante, inflação alta e margem de lucro fraca", diz o diretor do UBS Wealth Management Francisco Levy.
Os mercados começaram a ser sacudidos em 22 de maio, quando um discurso do presidente do Fed, Ben Bernanke, sinalizou que a redução dos estímulos monetários poderia ter início antes do esperado. Um dos fortes impactos ocorreu no câmbio, com a valorização do dólar diante das outras moedas, em especial as de emergentes.
Desde então, o real acumulou, em 30 dias, depreciação nominal de 9,22%. Na sexta-feira, a moeda americana fechou cotada a R$ 2,244. O peso mexicano caiu 8,01% em relação ao dólar no período. A rupia indiana perdeu 6,97%, seguida pelo peso chileno (-5,45%) e a lira turca (-5,18%).
O economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, afirma que o Brasil vai encarar esse novo momento de menor liquidez global com fundamentos mais frágeis, sobretudo do lado fiscal. Segundo ele, uma das razões para a perda do real é a deterioração na perspectiva para as transações correntes, cujo déficit em proporção do PIB vem piorando sistematicamente e nubla o já cauteloso cenário para fluxos.
O ambiente de maior aversão ao risco tem afetado também mais fortemente o mercado acionário brasileiro, que acumula uma perda mais intensa do que a de seus pares desde o dia 22 de maio. Levantamento feito pelo Valor mostra que, nesse período, o MSCI Brasil - índice que acompanha um grupo de ações e serve de referencial para fundos internacionais - acumula queda de 20,6%. Já o MSCI para América Latina perde 17,8% desde 22 de maio. O indicador para o México marca recuo de 14,7%. Para os EUA, a baixa é de apenas 4,9%.
O estrategista do BB Investimentos, Hamilton Moreira Alves, diz que o mercado brasileiro teve uma reação pior por dois motivos principais. O primeiro foi a revisão da perspectiva do rating do Brasil pela agência de classificação de risco Standard and Poor"s, em 6 de junho, de estável para negativa. Para ele, essa notícia provocou a venda de muitos fundos.
"A redução traz o Brasil para um patamar mais baixo de negociações." Outro fator é o próprio tamanho da bolsa brasileira, bem mais líquida que suas pares na América Latina.
Para o Goldman Sachs, a única vantagem do Brasil no momento é a própria queda mais forte dos últimos pregões. Com isso, o mercado fica mais leve - ou seja, mais atrativo para os investidores, com as ações a preços baixos.
Na semana passada, o índice Ibovespa sofreu queda acumulada de 4,61%, indo aos 47.056 pontos. No mês, a baixa alcança os 12,05% e no ano, os 22,80%.
Para Levy, do UBS, todo esse quadro de incertezas tem reforçado também a aposta de que o Banco Central terá de agir com mais firmeza na condução da política monetária, para conter a inflação, amenizar o efeito da desvalorização cambial sobre os preços e, sobretudo, fazer frente à política fiscal ainda expansionista. "A verdade é que o Brasil está mal posicionado em relação a seus pares. Agora, a tendência de aperto monetário é geral, por causa do ambiente externo. Mas, quando tudo se normalizar, aqui ainda teremos de subir os juros, por causa da inflação alta."
O aumento do déficit em transações correntes do país é um outro problema. "Isso prejudica a perspectiva de crescimento por que mina a confiança. Daí para o investimento voltar a cair é um pulo. E a economia fica travada, não cresce. No fim, o câmbio fica mais pressionado e o BC teria que aumentar o juro muito mais para atrair capital", diz Lima, da Western Asset.
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