Valor Econômico - 08/07/2013
A ex-ministra do Meio Ambiente da França, Delphine Batho, disse ter perdido o cargo por apoiar a proibição à prospecção de o xisto e por defender uma menor dependência de energia nuclear.
"A batalha se cristalizou notadamente na questão do gás de xisto e, de forma mais discreta, na redução do uso de energia nuclear na França", afirmou Delphine em entrevista na semana passada na Assembleia Nacional, em Paris. "As forças de que estou falando pediram minha cabeça."
A ex-ministra continuou a fazer suas críticas públicas ao governo francês ao dizer à rádio RMC que há "enorme mal-estar" e "decepção" com o governo socialista. Delphine, que ocupava tanto a pasta de Energia quanto a de Meio Ambiente, foi exonerada pelo presidente François Hollande no início da semana passada, depois de ela qualificar os planos de gastos do governo para 2014 de "ruins", porque reduziam os recursos de seu ministério em cerca de 7%.
Ela deixa o governo num período crítico, num momento em que o país discute sua futura combinação de matrizes energéticas, após Hollande ter prometido diminuir a parcela de energia elétrica extraída pela França de usinas nucleares, que é a maior do mundo.
Uma legislação energética deverá ser formulada nos próximos meses e ser enviada ao Parlamento no início de 2014. Há muito em jogo para a Électricité de France, operadora dos 58 reatores nucleares do país, porque a empresa quer prorrogar a vida útil de suas usinas, em vez de ver algumas delas desativadas.
O deputado socialista Philippe Martin foi nomeado para substituir Delphine. Ele é um crítico de longa data da técnica da fratura hidráulica usada na exploração de óleo e gás de xisto, que foi proibida na França. É também crítico de organismos transgênicos.
Delphine disse que "nunca imaginou, nem por um minuto", que seus comentários sobre os cortes no Orçamento levariam à sua exoneração. "Não vou ficar calada", disse ela.
Cinquenta e quatro por cento da população francesa não aprova a demissão de Delphine por Hollande, segundo sondagem publicada na sexta-feira pela empresa de pesquisa de opinião BVA, realizada para o jornal "Le Parisien" e para o canal de TV de notícias i-Tele. O percentual é maior, de 63%, entre os consultados com menos de 35 anos.
Delphine disse que Philippe Crouzet, presidente do conselho de supervisão da empresa francesa de soluções energéticas Vallourec, a descreveu como sendo "um desastre" e comentou sobre sua provável saída do ministério antes de sua exoneração ser anunciada. Em comunicado divulgado na noite de quinta-feira Crouzet negou ter alguma vez "comentado sobre o eventual afastamento da ministra".
A Vallourec fabrica tubulações para o setor de petróleo e gás, inclusive nos Estados Unidos, onde opera no setor de xisto.
O premiê francês, Jean-Marc Ayrault, disse no dia 3 ao Parlamento que os comentários de Delphine sobre o orçamento representavam "um problema político" e demonstravam falta de fidelidade ao governo. As questões ambientais continuam "no cerne" das políticas de governo de Hollande, afirmou.
O afastamento de Delphine é o segundo de um membro-chave do gabinete de Hollande, depois da saída do ministro do Orçamento, Jérome Cahuzac, que renunciou ao cargo, em março, após reconhecer ser o titular de uma conta bancária não declarada na Suíça. Ao afastar Delphine, Hollande sinalizou a sua determinação de diminuir o gasto público e manter a disciplina nas fileiras do governo.
Hollande prometeu reduzir a dependência do país da energia nuclear para 50% do total da produção até cerca de 2025, em relação aos 75% atuais.
O que porá à prova a disposição de Hollande de cumprir sua promessa de campanha será o fechamento ou não do reator mais velho da EDF, em Fessenheim, apesar da resistência da central, afirmou Delphine.
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