Autor(es): DIEGO AMORIM
Correio Braziliense - 16/08/2013
Governo, que segurou o quanto pôde o reajuste dos combustíveis, tenta administrar o repasse da alta da moeda norte-americana à inflação e atender os pedidos da Petrobras, que está com o caixa abalado. Juros devem atingir 9% Insensível às intervenções do Banco Central, o mercado se entusiasmou ontem um pouco mais com os sinais de recuperação da economia dos Estados Unidos e fez o dólar subir pelo quarto dia consecutivo. Ao longo da sessão, a moeda norte-americana bateu em R$ 2,351, independentemente de a autoridade monetária ter despejado quase US$ 2 bilhões no mercado. No fim do pregão, com a entrada de recursos trazidos por exportadores, a divisa recuou a R$ 2,338 para venda. Mesmo assim, cravou alta de 0,58% e a maior cotação desde 11 de março de 2009. No acumulado do ano, o dólar já subiu 16,8%, tornando-se um tormento para o governo. Nas contas do presidente do BC, Alexandre Tombini, uma valorização de 20% da moeda significa um ponto percentual a mais no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), “um caminhão de inflação”, nas palavras dele.
Integrantes da equipe econômica reconhecem que a capacidade do BC de conter a disparada dos preços da divisa dos EUA é limitada. Na verdade, o que a autoridade monetária vem fazendo desde o fim de maio, jogando mais de US$ 34 bilhões no mercado, é reduzir o nervosismo dos investidores e a volatilidade dos preços, que provocam muita insegurança nos agentes econômicos. Para tentar amenizar os estragos do dólar e manter a inflação sob controle, o Comitê de Política Monetária (Copom) deverá aumentar a taxa básica de juros (Selic) em 0,5 ponto percentual no fim deste mês, dos atuais 8,50% para 9% ao ano, a despeito dos sinais de fragilidade da atividade produtiva.
A expectativa dos especialistas é de que a moeda norte-americana caminhe para os R$ 2,50 até o fim do ano, à medida que se confirmem os resultados positivos do mercado de trabalho dos EUA — fato que pesou muito ontem para que o dólar subisse a R$ 2,35 — e a redução dos estímulos dados pelo Federal Reserve (Fed) à maior economia do mundo. “A proximidade do fim dos estímulos nos EUA levará a uma escassez de recursos em mercados como o brasileiro”, prevê o gerente de Câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo. “Pela atual conjuntura, fica difícil imaginar um dólar ao redor de R$ 2,20 até dezembro”, reforça. No entender dele, as tentativas do BC de impedir esse movimento não surtirão muito efeito, salvo uma operação pouco provável de venda de dólares no mercado à vista.
Combinação perversaNão bastasse a recuperação em curso da atividade econômica nos EUA, o cenário brasileiro tem contribuído para a desvalorização do real, sobretudo por conta do deficit cada vez maior nas contas externas. “O BC não tem força para segurar o dólar. Pode até conseguir desacelerar a alta da moeda, mas é muito complicado forçar uma queda neste momento”, comentou o analista Marcelo Torto, da Ativa Corretora.
Certos de que o dólar mais caro veio para ficar, economistas alertam para a perversa relação entre dólar alto e inflação. Para Torto, o impacto da desvalorização do real nos preços ao consumidor poderá ser percebido nos indicadores de agosto, revelando que a acomodação da carestia em julho não passou de uma situação pontual. “Com o dólar a R$ 2,40 e juros, no máximo, a 10% ao ano, o governo vai tentar gerenciar a inflação até as eleições”, analisou.
O quadro pode piorar diante da expectativa em torno do aumento dos combustíveis, para atender um pleito da Petrobras, cujo caixa está abalado. O economista-sênior do Espírito Santo Investment Bank (BES), Flávio Serrano, sublinhou que não há como acomodar um novo reajuste da gasolina e do diesel na inflação, diante da promessa do BC de entregar, neste ano, um IPCA menor que os 5,84% de 2012.
Diante desse quadro, o Bradesco, segundo maior banco privado do país, revisou para cima a projeção de inflação para este ano, de 5,75% para 5,90%. Conforme anunciou Octavio de Barros, diretor de Pesquisas e Estudos Macroeconômicos da instituição, o motivo foi justamente um possível encarecimento dos combustíveis.
Localização
(51) 3012-4169
aeceee@aeceee.org.br