Autor(es): Marcelo Sakate e Ana Luiza DaltroVeja - 02/09/2013 Os blecautes como o da semana passada são evidências de que a retomada do crescimento continua limitada pela falta de investimentos
A economia brasileira cresceu entre abril e junho no seu ritmo mais intenso desde o início de 2010. O avanço de 1,5% em relação ao primeiro trimestre, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), superou as expectativas de especialistas. No acumulado do primeiro semestre, o avanço foi de 2,6%. Sustentada pela safra recorde, a agropecuária cresceu 3,9% no trimestre. A indústria e os investimentos também deram sinais de melhora. As boas notícias, no entanto, mostram um retrato que possivelmente tenha sido passageiro. Indicadores mais recentes apontam para uma redução no ritmo da atividade. A persistência da inflação acima de 6% ao ano causa estragos que se fazem sentir. Os consumidores estão mais cautelosos com seus gastos, enquanto os empresários adiam planos de investimentos por causa das incertezas causadas pelos vaivéns na política econômica. O Banco Central, na semana passada, elevou a taxa básica de juros, a Selic, de 8,5% para 9% ao ano com o objetivo de arrefecer a demanda e, assim, a pressão inflacionária. A recente valorização de 20% do dólar complicou ainda mais o cenário.A saída para romper o círculo vicioso do baixo crescimento e da inflação elevada passa necessariamente pela ampliação da capacidade produtiva da economia, aumentando o total investido em infraestrutura e também na expansão das empresas. Nas comparações internacionais, são poucos os países cujas taxas de investimento em relação ao PIB são tão baixas como as do Brasil. Não por acaso, economias vizinhas como a do Chile e a do Peru avançam a um ritmo mais acelerado do que o Brasil, sustentadas por investimentos que oscilam em tomo de 25% do PIB. Os dados do IBGE mostram que, apesar do bem-vindo avanço dos investimentos pelo segundo trimestre seguido, a taxa brasileira não passa de 19% do PIB. A China investe, proporcionalmente, mais que o dobro do porcentual brasileiro.Os sintomas do cenário de baixo investimento são evidentes nas filas de caminhões nos portos, na qualidade mim da telefonia, nos congestionamentos das grandes metrópoles ou nos recorrentes blecautes. O apagão que deixou o Nordeste sem luz na tarde da última quarta-feira não pode ser explicado apenas como um evento isolado causado por uma fatalidade — o governo rapidamente divulgou a versão de que queimadas teriam causado o desligamento de duas linhas de transmissão no Piauí, gerando o efeito cascata que deixou os nove estados da região sem luz por duas horas e meia. O apagão da semana passada foi o décimo de grandes proporções no governo da presidente Dilma Rousseff. No plano das ações locais, uma medida preventiva. como a retirada da vegetação que fica sob as linhas de transmissão, reduziria o risco proporcionado pelas queimadas. Trata-se de uma tarefa a cargo das empresas, mas cuja fiscalização cabe à agência reguladora, a Aneel. No campo do planejamento, a responsabilidade cabe integralmente ao governo, e o apagão é exemplar para demonstrar as falhas da gestão.A pior seca em meio século no Nordeste reduziu a capacidade de produção hidrelétrica da região, cujos reservatórios de água estão com o menor nível em uma década. A consequência é que é os estados nordestinos são obrigados a importar de outras regiões do país 25% da energia que consomem, o que significa que a operação não tem folga para eventos como o desligamento das linhas de transmissão do Piauí. Quando a carga de energia demandada supera a oferta. O sistema inteiro cai por precaução. É o apagão. “Os recentes blecautes são causados por falhas de equipamentos e problemas na coordenação da proteção do sistema”, diz Mario Veiga, presidente da consultoria especializada PSR. “É preciso muito planejamento para que o desligamento de um equipamento não cause um efeito dominó que afete todo o sistema.”A situação no setor elétrico poderia estar melhor se não fossem os atrasos nas obras de expansão da geração e de transmissão de energia. Dois terços das obras previstas para a ampliação da transmissão, num total de 26000 quilômetros em novas linhas, estão fora do prazo previsto, com atraso médio de um ano. “À medida que o consumo de energia no país aumenta, são necessárias novas linhas. Quando o cronograma atrasa, o sistema como um todo fica fragilizado, o que diminui a sua confiabilidade”, diz Djalma Falcão, professor de Engenharia Elétrica da Coppe-UFRJ. Há casos escandalosos. Faz mais de um ano que um parque eólico no sul da Bahia está concluído, mas não pode entregar energia para ao sistema nacional porque a rede de transmissão não ficou pronta.São sintomas reveladores da distância que separa a economia brasileira do crescimento duradouro. Um diagnóstico preciso sobre a encruzilhada à frente do país partiu do empresário Jorge Gerdau, presidente da Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade do governo. “Não creio que sairemos desse patamar de crescimento de 2%”, disse na quinta-feira, durante palestra em São Paulo. Segundo o empresário, estudos do Banco Mundial indicam que países que investem menos de 20% do PIB não crescem mais do que 2,5% ao ano. Para Gerdau, são duas as causas principais do crescimento fraco: o baixo investimento e a falta de governança na esfera pública. “Se houver investimento em governança, o Brasil pode crescer a taxas de 6% a 7%”. afirmou. Que seus colegas no governo ouçam o recado.
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