Sem energia, concessionárias continuarão comprando à vista, mas consumidor pagará (caro) a prazoPor Wagner FreireO Governo Federal precisa calibrar bem o edital do próximo leilão A-1, previsto para ocorrer até o final do ano. O insucesso no certame ampliará a falta de contratos de energia das distribuidoras: passando dos atuais 2 mil MW médios para 6 mil MW médios em 2014. A má notícia é que essa fatura - que ainda não está fechada - será cobrada dos consumidores nos próximos cinco anos e com atualização monetária.Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com base nos dispêndios da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), apontam que foram repassados para as distribuidoras R$1,44 bilhão de janeiro a julho para cobrir a exposição involuntária. "É muito ruim essa subcontratação das distribuidoras, pois ônus acaba ficando com o consumidor", lembrou Ricardo Savoia, diretor de Regulação e Gestão em Energia da Thymos Energia.A exposição não estava nos planos do governo, que contava com a energia (velha) das geradoras Cesp, Cemig, Copel e Celesc, mas essas companhias não aceitaram as condições oferecidas na Medida Provisória 579/2012 e não renovaram os contratos.Buscando contratar ao menos parte desses 2 mil MW médios energia, o governo promoveu o leilão chamado de "A-0", com entrega de 1º de junho de 2013 a 30 de julho de 2014. O certame, porém, foi um fracasso. O preço inicial de R$171,80/MWh definido pelo Ministério de Minas e Energia (MME) não atraiu vendedores.O presidente da comercializadora Tradener, Walfrido Ávila, explicou o contexto, em entrevista ao Jornal da Energia. "A gente se inscreveu no leilão. Pagamos a garantia, mas na hora saímos, porque o peço oferecido era muito diferente do mercado", disse o executivo. "Eu preferia vender para uma distribuidora a vender no spot. Mas ninguém vai vender muito abaixo o valor da energia."Em junho, mês da realização do leilão, o preço da energia à vista, sinalizado pelo Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) ultrapassam os R$180/Mwh, de acordo com dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). Já os preços médios dos contratos dos 2 mil MW médios estavam na casa dos R$100/MWh, segundo Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).O diretor da Abradee, Marco Delgado, informou que a associação está interagindo com o governo numa expectativa de discutir o formado do próximo leilão A-1. "Deixar o leilão ficar deserto vai obrigar as distribuidoras a comprar a PLD. E esse custo depois vai para a tarifa", alertou Delgado.Para ele, o governo precisa considerar o risco de uma exposição ainda maior em 2014. "O PLD é um concorrente. Mas um produto mais longo pode tornar o preço do PLD menos relevante para um investidor no leilão", opinou o diretor.O consultor Ricardo Savoia, da Thymos Energia, informou que as incertezas de 2013 já "poluíram" o PLD de 2014. "A tendência é que pelo menos no primeiro semestre de 2014 os preços do PLD sigam altos." Na visão de Savoia, além do prazo, o governo precisará melhorar o preço de oferta do leilão.Walfrido Ávila, da comercializadora Tradener, entretanto, é contra o governo aumentar o preço. "Quem aumenta preço é o mercado. Se deixarem as distribuidoras comprar o valor final seria menor para o consumidor do que está sendo feito. A exposição involuntária está elevando o custo a um patamar maior do que deveria ser", opinou Ávila.ContextoTecnicamente conhecida como exposição, ocorre quando a concessionária não possui a totalidade da energia necessária para atender seus clientes. Para evitar essa situação existem os leilões de energia nova, ajuste e o A-1. O assunto é levado tão a sério que a regulação brasileira penaliza a distribuidora que deixar faltar energia.Mas no caso dos 2 mil MW médios atuais de exposição, a falta de energia das distribuidoras ocorreu por causa dos desdobramentos do processo de renovação das concessões de geração. Daí o termo "exposição involuntária"Se não bastasse, a energia no mercado à vista (spot ou curto prazo) subiu substancialmente, pois as hidrelétricas (mais baratas) estavam sendo poupadas, e as térmicas (mais caras) estavam abastecendo o País para evitar o desabastecimento.Esse custo mais alto com a compra de energia estava afetando o caixa das distribuidoras. O governo socorreu as empresas, antecipando recursos da CDE em 2013. No entanto, não se sabe se a ajuda será mantida em 2014. Para aportar a CDE, o Tesouro já emitiu neste ano R$4 bilhões em títulos dívida pública, segundo despachos publicados no Diário Oficial da União (DOU), além de lançar mão de outros recursos, como a antecipação de recebíveis da usina de Itaipu para capitalizar o fundo setorial.
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