Correio Braziliense - 25/09/2013 O rombo nas contas externas não para de crescer. De janeiro a agosto, as transações do Brasil com o resto do mundo deixaram um saldo negativo de US$ 57,9 bilhões. O número, que é recorde para o período, já ultrapassa o valor total registrado em todo o ano passado, de US$ 54,2 bilhões. Com esse desempenho, o país, antes listado entre as economias emergentes mais robustas, foi incluído no grupo dos "cinco frágeis", que tem as moedas mais vulneráveis do planeta.Gastos de brasileiros no exterior em crescimento e balança comercial prestes a mergulhar em resultados negativos, segundo o Banco Central (BC), são os principais motivos do deficit. A maior causa de inquietação, conforme especialistas, é que, como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), o rombo é muito elevado. No acumulado do ano, ele foi equivalente a 4,01% de todas as riquezas produzidas no país. A velocidade em que o percentual vem crescendo também acendeu a luz amarela. Comparado a 2012, quase dobrou. "É um número que preocupa, mas em uma economia que tenha câmbio flutuante de verdade, em que o dólar oscila livremente, isso acaba se ajustando", observou Mauro Schneider, economista-chefe do CGD Securities.Tulio Maciel, chefe do Departamento Econômico do Banco Central, afirma que o avanço do saldo negativo não é um problema, até agora. "As contas externas evoluíram dentro do esperado", disse. "Deficit em transações correntes é uma característica de países emergentes. Estamos importando poupança", argumentou.José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, não considera os números tão confortáveis. "O deficit continua em alta e o financiamento dele, em percentual do PIB, continua piorando", destacou. O cenário, resumido por Gonçalves, levou a autoridade monetária a revisar projeções para pior (veja quadro). A balança comercial, por exemplo, para a qual, até junho, se previa superavit de US$ 7 bilhões em 2013, deve apresentar um saldo positivo menor, de apenas US$ 2 bilhões.EspeculaçãoPelos números do BC, o Investimento Estrangeiro Direto (IED), principal fonte para cobrir os rombos nas contas externas, já não é mais suficiente. No ano, o fluxo desses recursos chegou apenas a US$ 39 bilhões, volume que financiou somente 67,3% do deficit. O restante tem sido resolvido com capitais especulativos, que ingressam no Brasil em busca de ações, papéis de renda fixa e outras aplicações — um dinheiro volátil, que costuma deixar o país na primeira situação de crise ou de maior estresse.A retirada do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para investimentos estrangeiros em renda fixa ajudou a melhorar o ingresso desses capitais. O aumento dos juros também tornou os papéis brasileiros mais atraentes. "O investimento estrangeiro em portfólio continua avançando, sobretudo devido à renda fixa, que toma o lugar das outras captações de médio e longo prazos", afirmou Gabriela Fernandes, economista do Itaú Unibanco. Até agosto, os investimentos em renda fixa somaram US$ 20,5 bilhões. Em ações, foram US$ 7,5 bilhões.» Dólar estável: R$ 2,201O dólar fechou ontem estável ante o real, anulando, no fim do pregão, as perdas vistas em boa parte do dia e mostrando que a divisa dos EUA encontra um piso próximo de R$ 2,20. A moeda norte-americana ficou cotada a R$ 2,201 na venda. "O piso do dólar está perto dos patamares atuais. Essa recuperação durante a tarde (depois de chegar a R$ 2,189) confirma isso", disse o diretor de Câmbio da Pioneer Corretora, João Medeiros.» Fuga de US$ 1,02 biO fluxo cambial brasileiro, que resulta da diferença entre o ingresso e a saída de dólares no país, apresenta um saldo negativo de US$ 1,02 bilhão no ano, segundo dados do Banco Central. Esse movimento é composto por outras duas contas. O mercado financeiro, a primeira delas, é a principal porta de fuga da divisa: em 2013, está no vermelho em US$ 11,3 bilhões. A segunda é o saldo comercial, que está positivo em US$ 10,3 bilhões. De acordo com especialistas, o menor fluxo de dinheiro para o Brasil se explica, em parte, pelo ritmo mais lento de captação das empresas nacionais no exterior, sobretudo os bancos.Buraco crescenteDeficit nas transações com o exterior dispara e país se consolida com um dos cinco emergentes mais frágeis do mundoEvolução do rombo em US$ bilhões)Desde 2008, saldo negativo as contas externas vançou 166,9%2004 11,62005 13,92006 13,62007 1,52008 -28,12009 -24,32010 -47,22011 -52,42012 -54,22013 -75,0*Financiamento em baixa em US$ bilhões)Total de Investimento Estrangeiro Direto vai cobrir apenas 80% do buraco2004 18,12005 15,02006 18,82007 34,52008 45,02009 25,92010 48,52011 66,62012 65,22013 60,0*Recorde em US$ bilhões)Nem alta do dólar foi capaz de parar o gasto de brasileiros no exterior2004 0,42005 -0,82006 -1,42007 -3,22008 -5,12009 -5,52010 -10,72011 -14,72012 -15,52013 -17,2**ProjeçãoProjeções refeitas (em US$ bilhões)Comércio do país piora e afeta contas externasIndicadores Junho SetembroBalança comercial 7,0 2,0Exportações 248,0 241,0Importações 241,0 239,0Viagens internacionais 16,7 17,2Remessa de lucros e dividendos 30,0 24,0IED 65,0 60,0
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