Brasil S.A - Antônio Machado Correio Braziliense - 04/10/2013 Dias atrás o ministro da Fazenda, Guido Mantega, lamentou o mal à imagem do Brasil provocado pelo colapso das empresas do grupo EBX, do empresário Eike Batista. Compreende-se o desapontamento com uma personagem que supervalorizou as promessas — muito bem-vistas pelo governo, aliás, apresentando-se ao mundo como a face empreendedora de um novo Brasil — e subestimou os riscos. Não havia porque passar recibo, associando a desdita de Eike ao conceito do país.As seis empresas abertas do rosário de 13 companhias do grupo EBX foram capitalizadas, em essência, por investidores atraídos menos pela consistência dos planos de negócios que pelo sonho vendido por Eike. Empresas iniciantes, sem histórico de resultados, sem um mísero centavo de faturamento, não desfrutam da mesma fé devotada a negócios maduros, tipo Coca-Cola. Não importa se foram vítimas da armadilha de um empresário que soube criar o mito de visionárioQuem confiou nos prospectos que acompanharam a abertura de capital dessas empresas foi uma penca de investidores profissionais, vários de fora do país, sabedores dos riscos em que incorriam. O provável é que apostaram tanto quanto Eike que os executivos recrutados à Petrobras pela OGX, a petroleira do grupo, conhecessem na palma da mão a geologia da Bacia de Campos. A OGX arrematou em leilão áreas cujos poços exploratórios se revelaram sem viabilidade comercial.Tal fato iniciou a ruína das empresas X, todas interligadas, como o estaleiro OSX (que construiria as plataformas de petróleo) e a LLX (operação de logística, com um porto concebido para ser o hub dos campos petrolíferos, assim como da mineradora do grupo, para a qual fora contratada a construção de uma ferrovia).Na última terça-feira, enfim, a OGX comunicou que não honraria o pagamento de juros das notas de uma de suas coligadas, no valor de US$ 45 milhões, considerado o maior tombo de um negócio privado na América Latina. A OGX disse ter 30 dias para evitar o default, o que configurara falência ou arrasta o caso para a esfera judicial. Eike tem se movimentado, vendido ativos, procurando sair do córner. Já procurou o governo, antes de ficar sem caixa, e nada conseguiu.O xis da questão é outroO governo nada tem com isso, embora o BNDES esteja entre os seus credores, assim como Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú, BTG. Esse não é o xis da questão: startups ou dão certo, tipo Google nos EUA, ou viram pó e são enterrados como indigentes, sem nome. Ainda não foi escrito o epitáfio do EBX. Seu destino está com o mercado. Não há o que tomar como dano à imagem do Brasil. Como afirmar tal coisa, se os investidores dos projetos de Eike envolvem os maiores globais? O Pimco, maior gestor de fundos de renda fixa do mundo, é um deles. Outro é o BlackRock, gigante dos fundos de hedge. Um dos chefões do Pimco, o economista Moahamed El-Erian, é conselheiro de presidentes dos EUA, articulista afamado. E nenhum desses senhores dos mercados desconfiaram dos "business plan" vendidos por Eike?A bolha inflou e furouO maior prejuízo provocado por Eike é para os projetos financiados no Brasil pelo capital de risco levantado do mercado de ações daqui e de fora. Essa é a perda a lamentar, especialmente com o colar das concessões chegando ao mercado, assim como a exploração do pré-sal. Nenhum projeto, novo ou não, pode ser bancado só com dívida, pois há restrição definida pelo capital próprio, ou com geração de caixa operacional. Para isso serve o mercado de capitais: para aportar os capitais de terceiros em ações ou em papéis de dívida, além dos que também podem ser convertidos em participação acionária. Eike fez uso das três possibilidades. Mas exagerou os seus feitos, posou de invencível — ou já nos esquecemos de que quando entrou na lista dos mais ricos do mundo, no ano passado, prometeu desbancar o empresário mexicano Carlos Slim da liderança e sugeriu que o Brasil deveria erguer uma estátua em sua homenagem? Ele inflou uma bolha — ignorada por gente que recebe bônus milionários para afastar desses logros a sua clientela, às vezes de viúvas — e ela furou. É isso.Dicas contra frustraçõesO que fazer para evitar arapucas? O colunista de América Latina da Bloomberg, Raul Gallegos, escrevendo sobre Eike, deu algumas dicas: fuja de empresas com plano de negócios incompreensível; atente à transparência (o que não houve com as empresas fechadas e a holding EBX); desconfie da porta-giratória de executivos (Eike os trocava como muda os jatos de sua coleção, diz Gallegos); evite presidentes com ego inflamado, e o de Eike, diz, tem o tamanho de uma plataforma de petróleo. Stephen Kanitz, o introdutor do ranking de empresas no Brasil, já cantara a bola anos atrás, ao escrever que Eike sugeria instabilidade, ao investir em petróleo, estaleiro, ferrovia, navio de recreio, time de vôlei, Rock in Rio etc. Não viu quem não quis.Cuidado com as palavrasO cuidado com as palavras proferidas por porta-vozes do governo se faz ainda mais necessário neste momento em que os mercados começam a duvidar das economias emergentes e as agências de risco põem em revisão a nota do Brasil. A última foi a Moody"s. Ela cortou de positiva para estável a nota de crédito da dívida soberana. Alegou desconforto com o crescimento baixo e com a transparência fiscal. As razões são legítimas. Mas países da Ásia e do Leste Europeu têm notas melhores que a do Brasil e desempenho econômico e financeiro muito inferior (falaremos disso outro dia). A tese das agências faz supor que isso se deve à argumentação mais pró-mercado desses países, entendida por alguns como sinal de "credibilidade", embora pareça mais de percepções. É clara a dificuldade do governo para entregar a meta de superavit primário, por exemplo, sem por em risco a solvência do país. Fazenda e Banco Central tentam explicar, mas o que dizem é recebido com pé atrás. Problema de comunicação?
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