Portaria 455 será maior desafio para setor de comercialização, mas figura do varejista e cessão são bem vindasAlexandre Canazio, da Agência CanalEnergia, Artigos e Entrevistas 26/12/2013 O ano de 2013 foi intenso para o setor elétrico e em especial para a comercialização de energia. E 2014 promete não menos emoção. As comercializadoras estão se preparando para grandes desafios como a implantação da segunda fase da Portaria 455, que pode ser adiada de fevereiro para o segundo semestre, a operacionalização do comercializador varejista e da cessão de energia. Entre polêmicas e aprimoramentos regulatórios, o mercado livre planeja continuar crescendo no ano que se avizinha.Paulo Toledo, sócio-diretor da Ecom Energia, uma das maiores comercializadoras do país, caracterizou 2013 como um ano bom para sua empresa, mas desafiador para o mercado como um todo. O alto preço da energia ajudou no faturamento com a venda, mas ao mesmo tempo travou a migração de consumidores livres.A comercializadora, segundo Toledo, que conversou com a Agência CanalEnergia no final de novembro durante o 5º Encontro Anual do Mercado Livre, já está se preparando para a portaria 455. Para o executivo, a norma que determina o registro ex-ante semanal dos contratos a partir de fevereiro não demonstrou o real ganho que vai proporcionar ao mercado. "Ainda não tenho opinião formada contra ou a favor. Só não conseguiram me provar que ela é boa", afirmou.Ele lembrou que a mudança trará elevação de custos para todos os agentes. Toledo, como outros agentes, defende a retomada dos diálogos com governo para se debater medidas regulatórias, que impactam o mercado, antes da implantação. Veja abaixo os principais pontos da entrevista:2013: Acho que o segundo semestre do ano foi um pouco mais liquido, o primeiro foi um pouco mais travado, com menos liquidez. No final das contas, não foi um ano tão ruim em termos de mercado, de preço. Teve ainda toda a incerteza do delta PLD, que atrapalhou um pouco até ter a nova metodologia de precificação. Mas a medida que o mercado precificou essas mudanças, o segundo semestre não foi ruim.Ecom: Foi um ano bom para Ecom. Conseguimos crescer. O mercado teve uma certa dificuldade de migração de novos consumidores por conta das tarifas do cativo. Vários consumidores que estavam em processo de mudança no começo do ano pararam momentaneamente. Nós mesmos, fazendo serviços de gestão, indicamos que era melhor esperar para ver como ficaria a situação. Em algumas distribuidoras, o preço não ficou tão vantajoso, em outras distribuidoras, já no segundo semestre, começou a voltar a ficar um pouco vantajoso por conta dos custos das térmicas.O primeiro semestre foi bem mais cauteloso. Houve bem menos migração para o mercado livre, o que diminuiu o nosso negócio de trazer cliente do cativo para o livre. Mas, a medida que agora as novas resoluções [de reajuste ou revisão tarifários] das distribuidoras com preços atualizados estão sendo divulgadas, volta-se a ter possibilidade de ter migração de novos clientes ao mercado livre.Então, foi um ano bom para a Ecom. Conseguimos atingir algumas metas que tinhamos. Não foi tão bom em termos de migração de novos clientes. Mas mesmo assim não houve perda de clientes ou retorno para o mercado cativo. No planejamento, até trabalhamos com a possibilidade de saída de algum consumidor, mas não ocorreu. O consumidor que já está no mercado livre percebe melhor as vantagens desse mercado.Em termos de volume de energia ficou parecido com ano passado. Com preço alto, o faturamento cresce muito e o risco também. Então, a comercializadora tende a ficar mais conservadora. Foi um ano dentro da expectativa.
2014: Já se configura como um ano mais estressado de novo. Até meados desse ano, a gente tinha uma expectativa de que fosse um ano mais calmo, mas o próprio preço de energia, o PLD na faixa de R$ 350, mostra que é um ano bem nervoso de novo. O preço já está contaminando 2014. E é um ano que tem definições a acontecer. Temos alguns cenários desenhados, mas não se sabe o que vai acontecer. Se tem muitas definições regulatórias, definições de preços, por conta das chuvas.Não chega a ser preocupante. Mas sempre que se tem muita mudanças de regras e regulatórias, é mais complicado de prevê o que vai acontecer. São fatores não gerenciáveis. No caso de preços, se tem mecanismo de simulação, mas mudanças regulatórias não e devem impactar o mercado.
Portaria 455: Não está claro qual o real ganho que vai proporcionar ao mercado. Ainda não tenho opinião formada contra ou a favor. só não conseguiram me provar que ela é boa. Pode ser que seja, mas não está claro. Ela vai trazer mais trabalho para todos, com custos operacionais maiores. A princípio, não entendi qual a segurança que ela vai trazer. A portaria não mostrou a que veio. Vai ter um investimento gigantesco de CCEE, comercializadores, geradores e consumidores. E não estamos enxergando qual será o real benefício dela. Nós comercializadores somos a favor de um mercado mais maduro, mais seguro, mais transparente, mais líquido, então tudo que traga isso será bem-vindo. Agora, se tem uma modificação que não consegue mostrar que traz isso, então precisamos discutir porque colocar? Somos nós que fazemos o mercado. Nós, eu digo, o governo e os agentes. É um conjunto harmônico que tem que estar alinhado.Tudo que se cria como complicador não é bom. Os grandes consumidores, que já estão no mercado livre absorvem essas novas regras, mas os pequenos, que são aqueles que estamos tentando atrair, podem achar que é muita complicação para uma economia não tão grande assim.
Comercializador varejista e cessão de excedentes: São duas boas notícias. O comercializador varejista é uma solução para expansão do mercado. Inclusive para a própria CCEE não ficar gigantesca com a necessidade da adesão dos consumidores menores. É uma excelente notícia. Precisa acelerar a regulamentação do que falta, principalmente, em relação a medição e de como ficaria o varejista em relação a inadimplência dos clientes. São detalhes operacionais da regra que precisam ser vistos rapidamente.No caso da cessão também acho que é um grande ganho, mas que carece de alguma regulamentação, principalmente, no que tange tributação que é muito importante. Acho que não se pode esquecer que o país tem um sistema tributário complexo, sobretudo, na questão do ICMS interestadual. Tem que começar uma coordenação entre os estados e a Aneel. Mas, sem dúvida nenhuma é um avanço. Precisa tomar cuidado que esses passos não sejam de mamute, que o próximo demore muito.Estamos olhando o mercado, a empresa, para ver qual a estrutura que a empresa deve ter quando nos tornarmos um varejista. Temos no nosso planejamento como nos estruturarmos para estar preparados para operacionalizar o varejista.
455 e a comercializadora: toda mudança regulatória gera trabalho adicional para quem é gestor de contratos. Preparamos seminários, conference call, os executivos visitam os clientes. E tem o nosso lado, preparar o back office, a empresa, para essas mudanças. A 455 para gente é uma realidade. Hoje nós estamos preparados para ela entrar em 1º fevereiro. Não posso correr o risco de não estar preparado. Fizemos a lição de casa para atender os clientes.Será um custo elevado sim. Temos que mudar sistemas, que eram baseados em um mercado de ex-post e passa para ex-ante, o consumidor também terá que mudar sua forma de trabalhar as previsões, que hoje é mensal. A interlocução de trabalho gestor-cliente vai mudar de uma rotina mensal para semanal, mais próxima, mais ativa. O consumidor terá que, talvez, ter uma pessoa dedicada mais a essa questão. Vai gerar mais custo porque gera mais trabalho.
PLD: O PLD tende a ficar mais alto. O PLD, com a nova metodologia com a CvAR, está mais volátil, está mais sensível. No começo do ano, a tendência é cair um pouco, mas depois do período úmido a tendência é que fique mais volátil, levando-se em conta o nível dos reservatórios e as previsões meteorológicas que temos. É um ano de volatilidade alta pelas condições atuais dos reservatórios. E qualquer recuperação do consumo ajuda nesse viés de alta do preço.
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