Notícias do setor
22/05/2014
Reservatórios de menos

MING, Celso. “Reservatórios de menos”. O Estado de São Paulo. São Paulo, 21 de

maio de 2014.

Ontem, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes

Chipp, reconheceu que o problema não está na simples falta de chuvas, desculpa a

que vem se aferrando o restante do governo Dilma. Está na falta estrutural de

capacidade de geração e de transmissão de energia.

Esta não é uma encrenca que começou ontem, é verdade, mas sua solução não

obteve nenhum encaminhamento decisivo neste governo.

"Está ficando cada vez mais difícil e estressante operar o sistema", disse o operador.

"Não há reservatórios e, com isso, há mais geração térmica. E (isso não acontece)

apenas neste ano, mas também em anos com uma hidrologia próxima da média."

Não há reservatórios porque o consumo está crescendo acima da reposição dos

estoques dos reservatórios. Em apenas oito anos, de 2004 a 2012, caiu em 17% a

capacidade de armazenamento de água nas represas hidrelétricas do Brasil.

Chipp não disse nenhuma novidade. Os especialistas no tema têm advertido há anos

para as vulnerabilidades do setor. Mas o governo as vem ignorando, seja porque

confiou demais na geração hidrelétrica, seja porque fez opções erradas. Uma dessas

opções foi ter enveredado por políticas de redução de preços que desembocaram na

forte dependência de geração térmica, a custos quatro vezes mais altos do que os

da geração hidrelétrica. No momento, nada menos que 30% da energia elétrica

produzida no Brasil exige queima ou de gás natural, ou de óleo diesel, ou de óleo

combustível, insumos que oneram a balança comercial. Só nesta atual temporada de

acionamento das térmicas, o custo dos combustíveis equivale aos investimentos nas

hidrelétricas do Rio Madeira, calculou Roberto Pereira D'Araujo, diretor do Instituto

de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico, em artigo recente no jornal Valor.

Embora pudessem atenuar as atuais agruras, a solução não está na improvisação de

medidas de racionamento de energia elétrica que, no momento, talvez nem se torne

necessário, nem equacionaria um problema estrutural. Está em repensar a matriz

energética, excessivamente dependente de um bom regime de chuvas ou de

importação de combustíveis. Esta é uma prioridade que vinha se impondo e sendo

sistematicamente ignorada desde a crise de 2001.

As crescentes dificuldades técnicas e ambientais impostas na construção de novos

reservatórios na Amazônia, onde ainda há potencial hidrelétrico a explorar, impõem o

aproveitamento de potenciais renováveis (energia eólica, solar e biomassa), que

poderiam reduzir o problema, mas não resolvê-lo definitivamente.

Tudo indica que não sobrará saída senão desenvolver a produção de gás natural de

xisto. É por esse caminho que os Estados Unidos vêm chegando rapidamente à

atual revolução energética, que está produzindo cada quilowatt/hora a custos que

são apenas uma fração dos custos do gás convencional.

O primeiro leilão de concessão destinado à produção desse tipo de gás no Brasil

aconteceu em novembro de 2013, mas a atividade continua sujeita a incertezas

regulatórias e à falta de sentido de urgência das autoridades do setor.

 

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