Notícias do setor
30/05/2014
Grid de largada para a energia solar

CHIARETTI, Daniela. “Grid de largada para a energia solar” Valor Econômico. São

Paulo, 28 de maio de 2014.

A obra de R$ 3,5 bilhões mobilizou quatro mil trabalhadores no pico da construção e

foi feita para levar energia da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, até Manaus e

Macapá. As linhas de transmissão de energia atravessaram as águas do Amazonas

e as do belo rio Trombetas, com torres de 305 metros, pouco mais baixas que a

Eiffel, relatou o jornalista Murillo Camarotto, do Valor, em abril. O "linhão de Tucuruí"

como é chamado, tem 1.750 quilômetros e atravessa 29 municípios no Pará, Amapá

e Amazonas. A meta, com estes cabos que se erguem sobre a Amazônia, é conectar

áreas importantes do Norte do Brasil ao Sistema Interligado Nacional (SIN). "Mas o

linhão de Tucuruí passou por cima da nossa cabeça e não trouxe luz para nós",

reclama Francisco Hugo de Souza, o líder quilombola das comunidades da região de

Oriximiná, referindo-se a milhares de extrativistas que vivem isolados na mata, viram

o linhão passar, as enormes torres serem erguidas e não ganharam nenhum

quilowatt com isso.

É triste: em lugares onde a Amazônia emociona de tão exuberante, como na Calha

Norte do rio Amazonas, noroeste paraense, o pessoal tem luz à noite durante três ou

quatro horas porque liga o gerador. Na hora da novela, a floresta tem barulho de

motor e cheira a diesel. Quilombolas, índios e ribeirinhos muitas vezes recebem

parte do combustível como "ajuda" de políticos locais que depois cobram a fatura

nas urnas. Não dava para instalar painéis de energia solar nestas pequenas vilas no

meio da mata e tirar a turma do escuro sem poluir a Amazônia e emitir gases-estufa?

Não é possível formular políticas públicas que contemplem esta gente, sejam

pioneiras e contemporâneas?

O Brasil chega tarde à energia fotovoltaica, aquela que produz eletricidade a partir do

Sol e de células de silício. A sinalização do governo neste rumo sempre foi tímida e o

argumento do preço alto imperou sobre todos os outros. Mas a julgar pelos

movimentos dos líderes do setor elétrico nos últimos dias, os tempos em que a

presidente Dilma Rousseff se referia à energia solar como "energia de butique"

(como deduram alguns ambientalistas), ficaram para trás. O presidente da Empresa

de Pesquisa Energética (EPE) Maurício Tolmasquim anunciou para o segundo

semestre um leilão específico para energia solar. Marcará o ingresso deste tipo de

energia na matriz brasileira. No chamado "leilão de energia de reserva" haverá

espaço para eólica, solar e biomassa sem que uma fonte concorra com a outra.

Se o discurso de Tolmasquim se confirmar, pode acontecer a contratação de 3,5 mil

megawatts de capacidade instalada de projetos solares em leilões nos próximos

anos. É um passo importante para que a fonte deixe de ser traço na matriz brasileira.

"Agora vai", celebra Sergio Leitão, diretor de políticas públicas do Greenpeace. "E

parece que vão consertar a burrice que atrapalhou a energia eólica no passado". A

"burrice" seria o alto índice de nacionalização exigido para financiar equipamentos,

regra que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) diz

que irá rever.

O mercado está só esperando. No site www.americadosol.org, um projeto do

Instituto Ideal, (organização de Florianópolis que desde 2007 se dedica ao

desenvolvimento de energias renováveis, especialmente solar), há mais de 300

fornecedores de equipamentos ou serviços de instalação de energia solar listados

em todo o Brasil. "Quando o mercado abrir, todos estarão no grid de largada", diz

Ricardo Baitelo, líder do projeto de energias renováveis do Greenpeace Brasil, um

especialista no assunto.

Há dois meses Baitelo está na Califórnia estudando o desenvolvimento do mercado

americano. "Aqui eles acham que a coisa está só começando", conta. Energia solar

responde por menos de 1% da energia elétrica nos EUA. A venda de painéis cresceu

54% em 2013 em relação ao ano anterior. Quem quiser instalar sistemas no telhado

de casa - e há muitas casas nos EUA - pode optar por leasing. Quem prefere

comprar o equipamento financia em 20 anos com juros de 9% ao ano. Há incentivos

e deduções fiscais para empresas.

No último ano e meio foi instalada no mundo a mesma quantidade de energia solar

que se colocou dos anos 70 até agora. A Alemanha é referência mundial neste

campo, investe há décadas em um sistema que impulsiona o avanço da energia

solar no país. Na arquitetura alemã, os consumidores bancam a matriz renovável e

qualquer pessoa pode vender o que gera em casa e injetar na rede. Há estimativas

que indicam que a energia fotovoltaica na Alemanha tem potência de geração

equivalente a 14 milhões de megawatts, o que dá uma Itaipu. E a China? Bem, a

China está transformando painéis solares em commodities e fornece para todo

mundo.

No Brasil, o primeiro flerte sério com energia solar aconteceu em 2012, quando a

Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) baixou a resolução normativa 482

dando as regras para projetos pequenos de geração fotovoltaica - ou seja,

explicando como deve fazer alguém que queira instalar um painel solar em casa ou

em sua loja. "Foi uma quebra de paradigma para o setor elétrico", registra Rodrigo

Lopes Sauaia, diretor executivo da Absolar, a jovem e ativa Associação Brasileira de

Energia Solar Fotovoltaica, que reúne 30 empresas nacionais e estrangeiras

interessadas no setor. A partir daí, os brasileiros podem instalar seu painel em casa,

gerar, e jogar na rede o que não consumiram. Infelizmente, não ganham dinheiro

com isso - apenas um crédito na conta seguinte. O sistema de tributação joga contra

os pioneiros e não há linhas de crédito especiais, com juros e prazos atraentes. Mais

de um ano depois, só uma centena de pessoas, no Brasil inteiro, entrou na dança, o

que indica que há muitos ajustes a fazer nestas normas. Sem falar nos projetos

grandes, que irão fazer diferença na matriz. "Este ano será histórico", celebra

Sauaia. "O prognóstico é muito positivo, o potencial brasileiro, gigantesco." E o

preço? Em dezembro, Pernambuco promoveu o primeiro leilão solar estadual do

Brasil. O preço da energia solar ofertado foi de R$ 228/MWh. O valor que se paga

pelas usinas térmicas que estão sendo acionadas é superior a R$ 800/MWh.

 

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