CHIARETTI, Daniela. “Grid de largada para a energia solar” Valor Econômico. São
Paulo, 28 de maio de 2014.
A obra de R$ 3,5 bilhões mobilizou quatro mil trabalhadores no pico da construção e
foi feita para levar energia da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, até Manaus e
Macapá. As linhas de transmissão de energia atravessaram as águas do Amazonas
e as do belo rio Trombetas, com torres de 305 metros, pouco mais baixas que a
Eiffel, relatou o jornalista Murillo Camarotto, do Valor, em abril. O "linhão de Tucuruí"
como é chamado, tem 1.750 quilômetros e atravessa 29 municípios no Pará, Amapá
e Amazonas. A meta, com estes cabos que se erguem sobre a Amazônia, é conectar
áreas importantes do Norte do Brasil ao Sistema Interligado Nacional (SIN). "Mas o
linhão de Tucuruí passou por cima da nossa cabeça e não trouxe luz para nós",
reclama Francisco Hugo de Souza, o líder quilombola das comunidades da região de
Oriximiná, referindo-se a milhares de extrativistas que vivem isolados na mata, viram
o linhão passar, as enormes torres serem erguidas e não ganharam nenhum
quilowatt com isso.
É triste: em lugares onde a Amazônia emociona de tão exuberante, como na Calha
Norte do rio Amazonas, noroeste paraense, o pessoal tem luz à noite durante três ou
quatro horas porque liga o gerador. Na hora da novela, a floresta tem barulho de
motor e cheira a diesel. Quilombolas, índios e ribeirinhos muitas vezes recebem
parte do combustível como "ajuda" de políticos locais que depois cobram a fatura
nas urnas. Não dava para instalar painéis de energia solar nestas pequenas vilas no
meio da mata e tirar a turma do escuro sem poluir a Amazônia e emitir gases-estufa?
Não é possível formular políticas públicas que contemplem esta gente, sejam
pioneiras e contemporâneas?
O Brasil chega tarde à energia fotovoltaica, aquela que produz eletricidade a partir do
Sol e de células de silício. A sinalização do governo neste rumo sempre foi tímida e o
argumento do preço alto imperou sobre todos os outros. Mas a julgar pelos
movimentos dos líderes do setor elétrico nos últimos dias, os tempos em que a
presidente Dilma Rousseff se referia à energia solar como "energia de butique"
(como deduram alguns ambientalistas), ficaram para trás. O presidente da Empresa
de Pesquisa Energética (EPE) Maurício Tolmasquim anunciou para o segundo
semestre um leilão específico para energia solar. Marcará o ingresso deste tipo de
energia na matriz brasileira. No chamado "leilão de energia de reserva" haverá
espaço para eólica, solar e biomassa sem que uma fonte concorra com a outra.
Se o discurso de Tolmasquim se confirmar, pode acontecer a contratação de 3,5 mil
megawatts de capacidade instalada de projetos solares em leilões nos próximos
anos. É um passo importante para que a fonte deixe de ser traço na matriz brasileira.
"Agora vai", celebra Sergio Leitão, diretor de políticas públicas do Greenpeace. "E
parece que vão consertar a burrice que atrapalhou a energia eólica no passado". A
"burrice" seria o alto índice de nacionalização exigido para financiar equipamentos,
regra que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) diz
que irá rever.
O mercado está só esperando. No site www.americadosol.org, um projeto do
Instituto Ideal, (organização de Florianópolis que desde 2007 se dedica ao
desenvolvimento de energias renováveis, especialmente solar), há mais de 300
fornecedores de equipamentos ou serviços de instalação de energia solar listados
em todo o Brasil. "Quando o mercado abrir, todos estarão no grid de largada", diz
Ricardo Baitelo, líder do projeto de energias renováveis do Greenpeace Brasil, um
especialista no assunto.
Há dois meses Baitelo está na Califórnia estudando o desenvolvimento do mercado
americano. "Aqui eles acham que a coisa está só começando", conta. Energia solar
responde por menos de 1% da energia elétrica nos EUA. A venda de painéis cresceu
54% em 2013 em relação ao ano anterior. Quem quiser instalar sistemas no telhado
de casa - e há muitas casas nos EUA - pode optar por leasing. Quem prefere
comprar o equipamento financia em 20 anos com juros de 9% ao ano. Há incentivos
e deduções fiscais para empresas.
No último ano e meio foi instalada no mundo a mesma quantidade de energia solar
que se colocou dos anos 70 até agora. A Alemanha é referência mundial neste
campo, investe há décadas em um sistema que impulsiona o avanço da energia
solar no país. Na arquitetura alemã, os consumidores bancam a matriz renovável e
qualquer pessoa pode vender o que gera em casa e injetar na rede. Há estimativas
que indicam que a energia fotovoltaica na Alemanha tem potência de geração
equivalente a 14 milhões de megawatts, o que dá uma Itaipu. E a China? Bem, a
China está transformando painéis solares em commodities e fornece para todo
mundo.
No Brasil, o primeiro flerte sério com energia solar aconteceu em 2012, quando a
Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) baixou a resolução normativa 482
dando as regras para projetos pequenos de geração fotovoltaica - ou seja,
explicando como deve fazer alguém que queira instalar um painel solar em casa ou
em sua loja. "Foi uma quebra de paradigma para o setor elétrico", registra Rodrigo
Lopes Sauaia, diretor executivo da Absolar, a jovem e ativa Associação Brasileira de
Energia Solar Fotovoltaica, que reúne 30 empresas nacionais e estrangeiras
interessadas no setor. A partir daí, os brasileiros podem instalar seu painel em casa,
gerar, e jogar na rede o que não consumiram. Infelizmente, não ganham dinheiro
com isso - apenas um crédito na conta seguinte. O sistema de tributação joga contra
os pioneiros e não há linhas de crédito especiais, com juros e prazos atraentes. Mais
de um ano depois, só uma centena de pessoas, no Brasil inteiro, entrou na dança, o
que indica que há muitos ajustes a fazer nestas normas. Sem falar nos projetos
grandes, que irão fazer diferença na matriz. "Este ano será histórico", celebra
Sauaia. "O prognóstico é muito positivo, o potencial brasileiro, gigantesco." E o
preço? Em dezembro, Pernambuco promoveu o primeiro leilão solar estadual do
Brasil. O preço da energia solar ofertado foi de R$ 228/MWh. O valor que se paga
pelas usinas térmicas que estão sendo acionadas é superior a R$ 800/MWh.
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