O humor dos investidores com as distribuidoras de energia mudou da água para vinho nos últimas dias. Além da forte queda dos preços do megawatt-hora, que despencaram de um patamar de R$ 823 em maio para R$ 320 nesta semana, analistas e executivos prevêem que o órgão regulador vai conceder reajustes tarifários mais generosos a partir de 2015.
As ações da AES Eletropaulo subiram ontem 7,4%, para R$ 9,76, figurando no topo da lista das maiores altas do índice Ibovespa. Os papéis da distribuidora paulista, que vinham apanhando na bolsa desde 2012, já acumulam uma valorização de 9% neste mês.
Além dos reajustes previstos neste ano, os analistas já traçam um cenário mais favorável para o 4º ciclo de revisões tarifárias, que começa a ser discutido amanhã pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). As regras vão valer de 2015 a 2018, quando entra em vigor o 5º ciclo.
Após encontro ontem em Brasília com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, o presidente do grupo AES Brasil, Britaldo Soares, afirmou ao Valor PRO, serviço em tempo real do Valor, que espera um processo menos "conturbado" no 4º ciclo de revisão das tarifas. "Esperamos uma decisão de bom senso", disse o executivo ao ser questionado sobre suas perspectivas para a próxima revisão.
A AES Eletropaulo sofreu um duro golpe no 3º ciclo. Na época, Aneel excluiu 246,4 mil metros de fios de sua base de remuneração, o que afetou sua tarifa. A companhia foi condenada pelo orgão regulador a "devolver" R$ 626 milhões aos consumidores nos próximos quatro anos.
Hoje, a diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) deve aprovar a abertura de uma série de audiências públicas para discutir aprimoramentos da revisão tarifária das distribuidoras. Entre os temas mas relevantes estão o aperfeiçoamento da base de remuneração regulatória (BRR), custos operacionais e custo de capital.
Os analistas Marcos Severine e Henrique Peretti, do J.P. Morgan, já haviam divulgado na semana passada um relatório otimista para as distribuidoras. Eles preveem que a Aneel vai aumentar a taxa de retorno (Wacc) dos atuais 7,5%, definida no 3º ciclo, para 8%. "Esperamos que a Aneel adote um posicionamento mais realista, que reflita o atual ambiente, e reconheça a necessidade de proporcionar uma taxa de retorno adequada para a realização de futuros investimentos", escreveram os analistas.
O Citi também elevou sua estimativas para a taxa de retorno das distribuidoras no 4º ciclo de 6,96% para 7,3%. O banco cita o fato de que, em março, a Aneel estabeleceu um retorno de 7,16% para as geradoras. Segundo os analistas do Citi, como o risco das distribuidoras é maior que o das geradoras, elas devem ter uma compensação maior. O banco elevou o preço-alvo para as ações da Eletropaulo de R$ 10,60 para R$ 11.
Além da Eletropaulo, as ações de outras distribuidoras também despertaram interesse dos investidores. Os papéis da Light avançaram ontem 2,4%, para R$ 21,12, acumulando neste mês uma alta de 6,6%. As ações da CPFL subiram 3,6%, para R$ 20,20, totalizando um ganho de 11% em junho. As ações da Energias do Brasil avançaram na segunda-feira mais 6,7%, para R$ 10,50, acumulando uma valorização neste mês de 11,8%.
Segundo a superintendente de regulação da Light, Angela Gomes, a Aneel está mais disposta a discutir com as distribuidoras o modelo de revisão tarifária e está mais preocupada em preservar a saúde financeira do setor. "Vejo uma nova Aneel. Vejo um maior diálogo e uma maior preocupação com a sustentabilidade das distribuidoras", disse Angela durante encontro ontem, no Rio.
Na avaliação de Arthur Ramos, vice-presidente da Strategy&, consultoria resultante da fusão da Booz & Company com a PwC, a Aneel deve mudar o "foco" neste 4º ciclo, colocando mais ênfase na qualidade e uso de novas tecnologias, como "smart grid". Esses investimentos, segundo ele, são necessários para "corrigir problemas".
Além da revisão tarifária em 2015, muitas distribuidoras ainda terão suas tarifas reajustadas neste ano. As próximas serão a Copel, no fim de junho, e a Eletropaulo, no começo de julho. Ontem, a Copel enviou à Aneel pedido de reajuste de 32,45%, percentual próximo ao previsto por Paulo Steele, da consultoria TR Soluções. Até o momento, as distribuidoras tiveram reajustes de 13% em média, calcula o analista. Em junho do ano passado, devido às manifestações, o governo do Paraná não repassou todo o reajuste da Copel (Valor, 10/6/14)
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