Notícias do setor
20/08/2014
A indústria sangra – Celso Ming

20/08/2014

Não deixa de ser paradoxal que uma indústria superprotegida, como a brasileira, que atua em uma das economias mais fechadas do planeta, esteja perdendo competitividade, até mesmo aqui no Brasil, transformado hoje em mercado cativo.
Nesta terça-feira, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, advertiu que “a indústria vive talvez um dos piores momentos da história”. Assim, um a um, os dirigentes revelam seu desapontamento pelo definhamento do setor.
Não deixa de ser paradoxal que uma indústria superprotegida, como a brasileira, que atua em uma das economias mais fechadas do planeta, esteja perdendo competitividade, até mesmo aqui no Brasil, transformado hoje em mercado cativo.
Sempre haverá aqueles que pedem ainda mais proteção ou que pregam contra a inserção da indústria brasileira nas cadeias globais de valor. Estes não conseguem explicar por que o agronegócio, que enfrenta o mesmo custo Brasil, a mesma precariedade da infraestrutura e o mesmo câmbio fora de lugar, dá um show de competitividade, enquanto a indústria está todos os dias sangrando mais.
Em artigo publicado nesta terça-feira no jornal Valor Econômico, o economista José Augusto Arantes Savasini põe o dedo nessa ferida dolorosa. Até agora, prevaleceu o ponto de vista de que a indústria tem de ser amplamente protegida, dentro do princípio de que não pode depender de suprimento externo e tem de ser autossuficiente. Savasini argumenta que essa política hoje prevalecente, defendida pelos próprios dirigentes do setor produtivo, é um tiro no pé e uma das principais causas do seu definhamento.
Como consequência dessa escolha estratégica, feita lá atrás e não corrigida, todos os subsetores são protegidos em todas as etapas de produção com elevadas tarifas de importação. O resultado é o de que o produto final incorpora os altos custos das máquinas, dos insumos, das peças e componentes. Tudo isso junto, ainda tem de enfrentar impostos e juros altos demais.
A reivindicação recorrente da indústria é a de que o governo proveja ampla desvalorização cambial que se destine a compensar a baixa competitividade. Ora, a proteção cambial cai, como chuva, sobre todas as etapas da produção e puxa outra vez para cima os custos finais. Como a hemorragia segue, a indústria briga por mais câmbio. Quando vem, outra vez os custos sobem e a roda viciada dá mais uma volta.
Savasini sugere que o processo de recuperação da indústria comece com gradual retirada da proteção aduaneira e com uma progressiva inserção da indústria no sistema global de produção e de agregação de valor.
Nesse processo, ficará claro que alguns setores não conseguirão subsistir porque não são competitivos. Mas a indústria brasileira como um todo tende a sair fortalecida porque incorporará tecnologia, baixará seus custos e conquistará mercado externo.
Este não é ainda o ponto de vista que prevalece no setor. Os atuais dirigentes industriais continuam mais propensos a aceitar favores episódicos, a defender fartura de subsídios e a distribuição de toda sorte de pirulitos que o governo sempre está disposto a fornecer.
Mas as coisas parecem bem mais maduras para mudar. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) há alguns anos também entoava o mesmo samba de uma nota só, que pedia cada vez mais proteção. Hoje é o primeiro dos organismos da indústria a defender uma política mais racional, mais moderna e mais madura (O Estado de S.Paulo, 20/8/14)

 

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