FAUS, Joan. “Novos deuses da energia conquistam influência política nos Estados
Unidos”. El País. 5 de dezembro de 2014.
Em fins de 2009 as coisas não iam nada bem para Charif Souki. Cada ação de sua
empresa valia três dólares, vilipendiada pelos investidores. Esse imigrante libanês
com mais de 40 anos nos Estados Unidos tinha dedicado sua última aventura
empresarial à importação de gás natural, convencido desde uma década antes que o
fornecimento energético dos EUA dependeria cada vez mais do exterior. Mas o gás
estrangeiro não chegava, enquanto a produção de gás norte-americano crescia.
Cada vez mais pressionado, Souki decidiu, em junho de 2010, dar uma guinada
radical em sua estratégia: transformaria os terminais de importação de gás natural
liquefeito em terminais de exportação. A mudança foi recebida com apatia e
desconfiança pela direção da empresa, os investidores e o setor. Mas em menos de
dois anos essa incredulidade resultaria errônea: o boom energético que vivem os
EUA coloca a empresa, a Cheniere Energy, na liderança do suculento negócio da
futura exportação. Souki acumulou no ano passado uma fortuna de 300 milhões de
dólares (cerca de 776 milhões de reais). Quase a metade corresponde ao seu salário
(142 milhões de dólares), o mais alto de um conselheiro delegado em 2013 nos EUA.
Cada ação da Chenerie vale hoje 70 dólares.
O caso de Souki, de 61 anos, não é algo isolado. É um exemplo do auge verificado
nos últimos anos de uma nova geração de bilionários nos EUA: o dos empresários
veteranos por trás da revolução do fracking, a controvertida técnica de faturamento
hidráulico de rochas de xisto (shale em inglês) no subsolo que catapultou o país ao
topo da produção mundial de petróleo e gás natural. Como os Rockefeller e os Getty
no século passado, os novos magnatas da energia estão nas manchetes e usam sua
fortuna para ganhar influência política -principalmente no Partido Republicano- e se
divertir.
Seu perfil, entretanto, é heterogêneo. Alguns deles estavam à beira da ruína antes
de descobrir o novo El Dorado. Alguns procedem de famílias muito humildes e têm
uma história de superação pessoal, enquanto outros têm um passado acomodado.
“Mas o denominador em comum é que todos eram outsiders: ignoraram a sabedoria
dos especialistas, que indicavam que se dedicar ao shale era perda de tempo”,
afirma em uma entrevista por telefone Gregory Zuckerman, jornalista do diário The
Wall Street Journal. Zuckerman é certamente o maior conhecedor da história desses
novos ricos, que narrou no ano passado no livro The Frackers.
À margem de Souki, o ensaio detalha a irrupção de outros empreendedores do
fracking nos EUA, como George Mitchell (considerado o precursor), Harold Hamm,
Aubrey McClendon, Tom Ward e Mark Papa. Todos eles também compartilham
traços de personalidade: “confiar muito em si mesmos e ser muito tenazes”. Persistir
em uma cruzada quando o consenso dos especialistas e da indústria dizia que tudo
era inútil, porque, sustentavam, as reservas de shale eram limitadas e não valia a
pena explorá-las. A teoria era que os EUA se encaminhavam para a volta a uma
maior dependência energética e que o melhor era procurar outros países onde
perfurar. Mas a tenacidade desses homens comuns rebateu a teoria e desencadeou
uma revolução com enormes implicações econômicas e geopolíticas em todo o
mundo.
“Eles têm esse otimismo americano. É um clichê, mas acreditavam que encontrariam
um modo de seguir em frente. Em parte porque não tinham outra opção”, diz
Zuckerman. As penúrias econômicas e a fascinação por achar uma oportunidade
levaram muitos deles a persistir em sofisticar a técnica do fracking -usada pela
primeira vez nos anos quarenta- para conseguir ter acesso aos bolsões de gás ou de
petróleo nos estados do centro dos EUA. “Como tantos americanos, queriam se
tornar bilionários. A indústria do petróleo e do gás atrai esse tipo de gente, é um
setor com muitos altos e baixos”.
Os bilionários do fracking “aproveitam seu dinheiro”, mas ao contrário de magnatas
de outros setores, esgrime o jornalista, continuam trabalhando intensamente . “Para
eles, nem tudo é pelo dinheiro. Mantêm a fome de se superarem”, aponta. O dinheiro
não lhes tirou a ânsia que nutriu sua vida e que, definitivamente, os tornou ricos. Não
se acomodam, querem mais.
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