EDITORIAL: “Crise da água e da energia derrubam previsão para PIB”. Valor
Econômico. São Paulo, 04 de fevereiro de 2015.
Nos oito anos em que Guido Mantega foi ministro da Fazenda, o ano começava com
projeções bastante otimistas para o desempenho da economia, que iam sendo
ajustadas à realidade, geralmente dura, à medida que o tempo passava. A mudança
de equipe econômica impôs um choque de realidade que tornou este ano bem
diferente. Passado apenas um mês, as projeções para o Produto Interno Bruto (PIB)
foram drasticamente reduzidas e a expectativa é de novas quedas. A variação
esperada para o PIB deste ano despencou de 1,04% para 0,03% em quatro
semanas, de acordo com a pesquisa Focus realizada pelo Banco Central (BC) junto
a cerca de 100 instituições financeiras e consultorias, divulgada na segunda-feira. E
não são poucos os economistas que esperam até uma recessão, dependendo da
gravidade da escassez de água e de energia elétrica.
As promessas de austeridade do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que
pretende obter superávit fiscal de 1,2% do PIB, acentuaram a expectativa de
atividade mais fraca e menor consumo neste ano, já prenunciada pelo aumento da
taxa básica de juros e do custo do crédito. O desempenho de 2014 não era um bom
prenúncio. A produção industrial caiu 2,8% em dezembro fechando o ano com queda
de 3,2%. As vendas dos supermercados tiveram crescimento real de 2,24%, menor
do que os 5,4% de 2013.
Mas havia o sentimento de que o ajuste fiscal teria um efeito positivo nas
expectativas, estimulando o investimento das empresas, animadas pelo câmbio mais
realista. A previsão inicial era de que a economia poderia até crescer pouco mais do
que em 2014. Agora já não há mais esta perspectiva.
O agravamento das denúncias da operação Lava-Jato e seu impacto nos projetos da
Petrobras e de algumas das maiores construtoras do país produziram o primeiro
corte nas projeções. As denúncias praticamente paralisaram os planos de
investimento da estatal e afetam também as obras de infraestrutura das construtoras.
Com um programa de investimentos de US$ 220 bilhões de 2014 a 2018, a
Petrobras faria sozinha cerca de 2% do PIB. Estima-se que cada R$ 1 investido pela
estatal alavanque mais R$ 1,90.
Em outro ângulo da dimensão do peso da Petrobras na economia brasileira, estimase
que ela represente cerca de 10% da formação bruta de capital fixo. A paralisia
dos projetos da estatal e das construtoras pode reduzir em 15% os investimentos em
infraestrutura do país, avalia uma das maiores consultorias do mercado (Valor, 28/1).
Cada 10% de redução em seus investimentos retira de 0,2 ponto a 0,3 ponto
percentual do PIB. Em função disso, foram revistas as expectativas para o
desempenho da indústria, investimentos e emprego, e as projeções iniciais de
crescimento do PIB se transformaram até em queda.
O agravamento dos problemas de abastecimento de água e a possibilidade de
racionamento de energia tornaram as previsões ainda mais sombrias. O Estado de
São Paulo determinou que as indústrias que captam água dos rios Atibaia,
Camanducaia e Jaguari reduzam o consumo em 30%. A Companhia Siderúrgica do
Atlântico (CSA), a Gerdau, Furnas e outras empresas que se abastecem no Rio
Guandu, no Rio, foram orientadas pelo governo a comprar água de reúso. Na região
metropolitana de Belo Horizonte, a ordem é reduzir o consumo em 30% em 90 dias.
A isso se soma a perspectiva de racionamento de energia, que o governo ainda
considera contornável, mas depende também das chuvas, que estão insatisfatórias.
As consultorias e bancos estimam que um eventual racionamento de energia pode
reduzir o PIB em 1 ponto a 1,5 ponto percentual, dependendo do grau de restrição.
As projeções levam em conta a experiência de 2001, quando o governo de Fernando
Henrique Cardoso cortou a oferta de energia em 20% por sete meses e a economia
mergulhou de um crescimento de 4,2% no ano anterior para 1,42%, também afetada
pelos reflexos da crise na Argentina e do ataque terrorista nos EUA.
As contas são difíceis e envolvem muitos pressupostos e consultorias e bancos
ainda refinam as estimativas. Uma mudança ocorrida foi a redução da indústria no
PIB e o aumento da importância do setor de serviços, cujo peso no consumo de
água e energia está sendo dimensionado. De toda forma, já se conta com uma
retração na economia, apesar de a presidente Dilma Rousseff ter dito ainda nesta
semana, na mensagem ao Congresso, que não promoveria "recessão e retrocesso”.
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