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05/02/2015
Crise da água e da energia derrubam previsão para PIB

EDITORIAL: “Crise da água e da energia derrubam previsão para PIB”. Valor

Econômico. São Paulo, 04 de fevereiro de 2015.

Nos oito anos em que Guido Mantega foi ministro da Fazenda, o ano começava com

projeções bastante otimistas para o desempenho da economia, que iam sendo

ajustadas à realidade, geralmente dura, à medida que o tempo passava. A mudança

de equipe econômica impôs um choque de realidade que tornou este ano bem

diferente. Passado apenas um mês, as projeções para o Produto Interno Bruto (PIB)

foram drasticamente reduzidas e a expectativa é de novas quedas. A variação

esperada para o PIB deste ano despencou de 1,04% para 0,03% em quatro

semanas, de acordo com a pesquisa Focus realizada pelo Banco Central (BC) junto

a cerca de 100 instituições financeiras e consultorias, divulgada na segunda-feira. E

não são poucos os economistas que esperam até uma recessão, dependendo da

gravidade da escassez de água e de energia elétrica.

As promessas de austeridade do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que

pretende obter superávit fiscal de 1,2% do PIB, acentuaram a expectativa de

atividade mais fraca e menor consumo neste ano, já prenunciada pelo aumento da

taxa básica de juros e do custo do crédito. O desempenho de 2014 não era um bom

prenúncio. A produção industrial caiu 2,8% em dezembro fechando o ano com queda

de 3,2%. As vendas dos supermercados tiveram crescimento real de 2,24%, menor

do que os 5,4% de 2013.

Mas havia o sentimento de que o ajuste fiscal teria um efeito positivo nas

expectativas, estimulando o investimento das empresas, animadas pelo câmbio mais

realista. A previsão inicial era de que a economia poderia até crescer pouco mais do

que em 2014. Agora já não há mais esta perspectiva.

O agravamento das denúncias da operação Lava-Jato e seu impacto nos projetos da

Petrobras e de algumas das maiores construtoras do país produziram o primeiro

corte nas projeções. As denúncias praticamente paralisaram os planos de

investimento da estatal e afetam também as obras de infraestrutura das construtoras.

Com um programa de investimentos de US$ 220 bilhões de 2014 a 2018, a

Petrobras faria sozinha cerca de 2% do PIB. Estima-se que cada R$ 1 investido pela

estatal alavanque mais R$ 1,90.

Em outro ângulo da dimensão do peso da Petrobras na economia brasileira, estimase

que ela represente cerca de 10% da formação bruta de capital fixo. A paralisia

dos projetos da estatal e das construtoras pode reduzir em 15% os investimentos em

infraestrutura do país, avalia uma das maiores consultorias do mercado (Valor, 28/1).

Cada 10% de redução em seus investimentos retira de 0,2 ponto a 0,3 ponto

percentual do PIB. Em função disso, foram revistas as expectativas para o

desempenho da indústria, investimentos e emprego, e as projeções iniciais de

crescimento do PIB se transformaram até em queda.

O agravamento dos problemas de abastecimento de água e a possibilidade de

racionamento de energia tornaram as previsões ainda mais sombrias. O Estado de

São Paulo determinou que as indústrias que captam água dos rios Atibaia,

Camanducaia e Jaguari reduzam o consumo em 30%. A Companhia Siderúrgica do

Atlântico (CSA), a Gerdau, Furnas e outras empresas que se abastecem no Rio

Guandu, no Rio, foram orientadas pelo governo a comprar água de reúso. Na região

metropolitana de Belo Horizonte, a ordem é reduzir o consumo em 30% em 90 dias.

A isso se soma a perspectiva de racionamento de energia, que o governo ainda

considera contornável, mas depende também das chuvas, que estão insatisfatórias.

As consultorias e bancos estimam que um eventual racionamento de energia pode

reduzir o PIB em 1 ponto a 1,5 ponto percentual, dependendo do grau de restrição.

As projeções levam em conta a experiência de 2001, quando o governo de Fernando

Henrique Cardoso cortou a oferta de energia em 20% por sete meses e a economia

mergulhou de um crescimento de 4,2% no ano anterior para 1,42%, também afetada

pelos reflexos da crise na Argentina e do ataque terrorista nos EUA.

As contas são difíceis e envolvem muitos pressupostos e consultorias e bancos

ainda refinam as estimativas. Uma mudança ocorrida foi a redução da indústria no

PIB e o aumento da importância do setor de serviços, cujo peso no consumo de

água e energia está sendo dimensionado. De toda forma, já se conta com uma

retração na economia, apesar de a presidente Dilma Rousseff ter dito ainda nesta

semana, na mensagem ao Congresso, que não promoveria "recessão e retrocesso”.

 

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