HOLTZ, Abel. “Brasil perdeu a capacidade de pensar estratégicamente o interesse
nacional”. Agência CanalEnergia. Rio de Janeiro, 04 de março de 2015.
Gostaríamos de interpretar o fato da comitiva presidencial do Brasil ter comparecido
à posse do presidente Evo Morales como um marco da mudança de percepção e
importância que nossos vizinhos representam para o bloco que podemos capitanear.
Em muitos dos países vizinhos ainda permanecem rancores e idiossincrasias com
relação a posturas do passado exercidas pelo Brasil de forma personalizada como
foi a tríplice aliança contra o Paraguai, ação instigada à época pelos ingleses que se
opunham ao desenvolvimento daquele País, e que redundou numa guerra sangrenta
cujo maior beneficio para nosso País foi à criação das favelas no Rio de Janeiro. Até
hoje, há uma reivindicação sem resposta da devolução de um canhão trazido pelas
tropas ao retornar ao nosso território.
Outro episódio envolvendo uma postura equivocada reside na compra de terras
ocupadas em território de outro vizinho, a Bolívia, cuja história registra que na troca o
nosso vizinho receberia o direito de uso de uma ferrovia que nunca foi construída. O
nosso vizinho por sua vez menciona que o território ocupado foi trocado por uma
meia dúzia de cavalos.
Saindo deste imaginário folclórico, temos o caso recente de acordo frustrado para
construção de algumas hidroelétricas na selva amazônica em outro vizinho, o Peru,
cujo processo por falta de uma ampla negociação quedou descartado pela
Assembleia Legislativa daquele País depois de termos despendidos em estudos, um
considerável montante de recursos e estabelecido expectativas que foram frustradas.
A politicagem hoje praticada de identificação com ideais ultrapassados não está
trazendo qualquer benefício ao Brasil. Assumimos que devemos conhecer melhor os
pontos de interesse comum entre nosso Brasil e seus vizinhos e sair do discurso de
formação de blocos ou o que quer que seja. Vamos ser pragmáticos.
A questão de fundo, dentre outras deficiências, foi que perdemos a capacidade de
pensar estrategicamente o “interesse nacional”. E isso se reflete, entre outros
aspectos, na incapacidade de serem elaboradas (e perseguidas, com consistência),
diretrizes e políticas, inclusive externas, que se apoiem ou sejam apoiadas, por
políticas internas que objetivem soluções de longo prazo. Energia é geopolítica e
exige soluções negociadas e de longo prazo, sempre.
Se não houver uma mudança radical na forma pela qual são conduzidas as políticas
públicas, significando compromissos de médio e longo prazo, que independam do
governo de plantão e seus interesses clientelísticos de curto prazo (“para ganhar
eleição”), vamos continuar administrando crises sucessivas.
Com o acirramento das restrições ambientais para aproveitamento de nosso
potencial hidroelétrico cuja situação de desequilíbrio atual entre oferta e demanda se
colocou de forma muito clara, devemos considerar muitos dos aproveitamentos
hidroelétricos existentes e disponíveis em nosso continente sem as mesmas
restrições.
Para tanto devemos mudar a postura do nosso país com relação aos nossos
vizinhos que na maioria das vezes desconhecem os objetivos de médios e longos
prazos que o Brasil tem para com eles, por não termos uma postura clara quanto aos
interesses econômicos comuns.
É chegada a hora de estabelecer no governo o mesmo pragmatismo que fez com
que Itaipu exista. Sem este empreendimento a “racionalização” da energia elétrica já
nos teria atingido.
Abel Holtz é consultor da área de energia
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