Os brasileiros podem (e devem) ter compreendido o recado, quase apelo, do governo, mas sabem que o foco da discussão está em quem pagará a conta do ajuste. O panelaço que fez trilha sonora à entrevista dos ministros revelou brasileiros de pavio curto, de Norte a Sul. E é neste clima de exaustão com a soma das palavras que o mercado financeiro retoma os negócios nesta manhã repleta de dúvidas, mas com uma certeza – nas últimas 24 horas ficou claro que o governo também terá menos margem disponível para acomodar conflitos em torno de decisões e de suas consequências.
Até a sexta-feira, antes das manifestações que escancararam um país interessado na mudança e na participação, já vinha perdendo dinheiro para valer no mercado financeiro aqueles que dobraram a aposta na rápida restauração da credibilidade do governo em função de a presidente Dilma Rousseff ter escolhido o conservador Joaquim Levy para o comando do Ministério da Fazenda. Também perdia dinheiro os que aplaudiram a incorporação de Nelson Barbosa e Alexandre Tombini à equipe econômica e a aprovação da presidente a medidas de ajuste que resvalam, inclusive, por benefícios trabalhistas.
O reconhecimento, feito pela presidente na semana passada durante evento no Rio, de que a política econômica que orientou o primeiro mandato esgotou, não foi trombeteada porque foi ocorreu em meio à repercussão de três eventos que fizeram disparar um sinal de alerta para o risco de a avaliação do Brasil ser ainda mais prejudicada aos olhos do investidor.
Os três eventos envolveram o governo. Particularmente, o Ministério da Fazenda.
Pesaram contra a estabilidade dos negócios: a informação mal explicada de que o ministro Levy supostamente teria dito que poderia deixar o cargo se o governo fosse derrotado em determinada votação no Congresso; a retirada de circulação de um título cambial pelo Tesouro, em leilão de troca de NTNs, quando o dólar já operava em alta de 15% no ano frente ao real: e o duelo travado entre a Fazenda e o Banco Central por autoridade no mercado de câmbio.
Fortalecido no mundo, no Brasil o dólar não subiu, disparou. Fechou a semana no maior preço desde a chegada do PT à Presidência da República em 2003. No ano, a valorização é de 22,2% frente ao real. Basta um vento e a moeda brasileira terá sofrido uma maxidesvalorização pós-eleição.
Em igual período, o risco Brasil, avaliado pelo Credit Default Swap (CDS), saltou 60%. Na sexta à tarde já rondava 305 pontos. Essa marca não coloca o país entre os órfãos do ‘grau de investimento’, mas o posiciona entre emissores de ‘junk bonds’. De um elenco de 50 economias em classificação decrescente por risco de crédito, segundo monitoramento disponível no site do Deutsche Bank Group neste fim de semana, o Brasil está na 6ª posição.
Encabeçam o ranking de maior risco em CDS, a líder Venezuela, a 5.582 pontos; Ucrânia, 1.822; Argentina, 810; Rússia, 870 e, Egito, 307. Em seguida vem o Brasil e, depois, o Casaquistão, com risco a 303 pontos. 16/03/2015 às 08h20 | Postado por: Angela Bittencourt Seção: Banco Central, BM&FBovespa, Governo, Ministério da Fazenda, Palácio do Planalto, PIB, Política econômica
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