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08/05/2015
Empresas de petróleo driblam queda de preços e lucram no mercado financeiro

08/05/2015

Apesar do colapso dos preços do petróleo, algumas das maiores petrolíferas do mundo estão registrando lucros expressivos em um recanto pouco divulgado de seus impérios: a divisão de negociação de valores.
As maiores empresas de petróleo do mundo tiveram resultados melhores que o esperado por muitos analistas no primeiro trimestre, amparados de certa forma pelas operações de refino e por cortes de custos, apesar da forte queda nos preços do petróleo em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Mas algumas dessas empresas, como a BP PLC, a Royal Dutch Shell PLC e a Total SA, também foram beneficiadas por suas divisões de negociação de valores, vastas operações voltadas para a compra e venda de petróleo e de seus derivativos financeiros.
Com o petróleo bruto do tipo Brent, o referencial global, sendo negociado em torno de 40% de seu pico de 2014, e em níveis até mais baixos que isso na maior parte do primeiro trimestre, os operadores foram capazes de tirar vantagem dos grandes spreads entre o preço atual do petróleo bruto e os preços mais elevados dos contratos futuros.
Esse não é um assunto sobre o qual as empresas costumam comentar. Nenhuma delas revela os lucros com as mesas de negociações e elas dizem que suas operações são feitas primeiramente para gerar lucro máximo de cada gota de petróleo que produzem.
Brian Gilvary, diretor financeiro da BP e ex-chefe do braço de negociação de valores da petrolífera britânica, não quis comentar na semana passada quando questionado sobre os lucros da divisão de negociações da empresa além da informação que ela teria registrado uma alta entre US$ 300 milhões a US$ 400 milhões no desempenho no primeiro trimestre. No geral, o lucro líquido da empresa caiu 40%.
“Em termos do resultado das operações de negociação, obviamente eu não posso revelar nada”, disse Gilvary durante uma teleconferência com analistas.
A Shell foi igualmente reticente. A empresa informou que as negociações de valores ligados ao petróleo aliviaram o golpe dos preços baixos, mas não revelou quanto. Seu equivalente ao lucro líquido cresceu 7% no primeiro trimestre. O diretor financeiro da petrolífera, Simon Henry, disse que a divisão de negociação de valores “agregava valor” à produção de petróleo e gás natural.
“Não são operações de Wall Street à la Goldman Sachs ”, disse Henry durante uma coletiva com a imprensa na semana passada.
Essa é uma distinção importante à medida que as negociações de petróleo passam por uma supervisão mais minuciosa em Washington e Bruxelas. Por conta de seu tamanho nos mercados de derivativos, as unidades da Shell e da BP são registradas como negociantes de “swaps” nos Estados Unidos, junto com os bancos e instituições financeiras, uma mudança que fez parte da reforma da legislação financeira que entrou em vigor com a Lei Dodd-Frank, de 2010. As empresas também estão enfrentando novas regulações de negociação de valores na Europa.
As principais negociadoras de petróleo estão localizadas na Europa, com a Shell, a BP e a Total liderando o grupo, com o apoio de seus volumes expressivos de produção. As petrolíferas americanas como Exxon Mobil Corp. e Chevron Corp. também são ativas na venda do petróleo que produzem, mas não desenvolveram seus braços de negociação da mesma forma.
Quando os preços do petróleo estão baixos, ou extremamente voláteis, as divisões de negociação podem realmente provar o seu valor, dizem analistas.
Antes de o mercado de petróleo começar a cair, em meados de 2014, os preços se mantiveram excepcionalmente elevados e estáveis por anos, limitando as oportunidades para fazer operações que exploram disparidades de preços. Com a recente volatilidade do mercado, a chance de ganhar dinheiro com operações inteligentes cresceu.
As empresas que negociam contratos como as grandes petrolíferas com acesso a estocagem de petróleo bruto também se beneficiaram nos últimos meses de uma estrutura de mercado conhecida como “contango,” que ocorre quando os preços do produto à vista estão mais baratos que os indicados pelos mercados futuros. Isso permite que as empresas comprem petróleo agora a preços menores, armazenem o produto e fechem acordos de venda a preços maiores no futuro, em busca de lucro.
“Nossas atividades de negociação geraram resultados fortes e nós nos beneficiamos da volatilidade do mercado e da estrutura contango do petróleo bruto”, disse Patrick de la Chevardière, diretor financeiro da Total, durante uma teleconferência na semana passada, quando anunciou um resultado trimestral 20% menor que o visto no mesmo período do ano anterior, mas ainda assim melhor que o esperado pela maioria dos analistas.
A maior parte das grandes petrolíferas considera a área de negociação como parte da divisão de comercialização, colocando-a junto com os lucros das refinarias e dos postos de gasolina no varejo. Quando as divisões de extração e exploração de petróleo são atingidas por uma crise, “a divisão de negociação não é necessariamente afetada e, por isso, ela oferece uma certa proteção contra os preços baixos do petróleo”, diz Roland Rechtsteiner, chefe global de petróleo e gás da consultoria Oliver Wyman.
Gilvary, da BP, disse que a empresa tinha US$ 1,4 bilhão de capital de giro vinculado a esse tipo de operação de armazenamento no primeiro trimestre e que os estoques serão vendidos durante o ano. Os negociadores da Shell possuem “uma linha de crédito aberta no momento” para tirar vantagem das oportunidades do mercado, disse Henry. Nos últimos seis meses, eles já usaram US$ 2 bilhões, disse ele.
As condições das negociações podem mudar com a contínua recuperação dos preços do petróleo, que superaram os US$ 69 por barril na quarta-feira, em Londres, e fecharam ontem em US$ 65,54. O spread do contango também se estreitou.
As condições ainda são as melhores em muitos anos, com lucros vindos não apenas das divisões de negociação de valores das grandes petrolíferas, mas também de tradings independentes como a Trafigura Beheer BV e a Glencore GLNCY -1.49% PLC. Os preços excepcionalmente elevados e estáveis do petróleo bruto pressionaram as margens das negociações nos últimos anos. Com o retorno da volatilidade, o cenário mudou (The Wall Street Journal, 8/5/15)

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