China desvalorizou a sua moeda, o yuan, e provocou turbulência em mercados financeiros de todo o mundo. Analistas apostam que, no Brasil, a cotação do dólar pode disparar como resultado da menor demanda externa pelos produtos brasileiros
Maeli Prado
Londres (Inglaterra) - A desvalorização da moeda local (yuan) pela China já leva analistas de mercado a apostarem em um real ainda mais fraco daqui para a frente - os mais pessimistas apontam para um dólar caminhando na direção de R$ 4. Na quinta-feira (13), um dólar terminou o dia valendo R$ 3,51, uma alta de 1,12%. No acumulado do ano, a moeda norte-americana já subiu 32%.
Preocupa também o impacto que a desaceleração cada vez mais intensa da economia chinesa vai gerar sobre o Brasil - o país é grande consumidor de campeões de exportações brasileiras, como minério de ferro e soja. Assim, um dos temores dos analistas é que as vendas externas do Brasil percam força, colocando em cheque uma das principais apostas do governo federal para deslanchar a economia.
O yuan não flutua livremente, como o euro ou o dólar. Seu valor é estipulado pelo Banco Central chinês, que divulga todos os dias de manhã um intervalo da cotação para o dia. Isso tornou a moeda mais valorizado do que deveria - alguns especialistas estimam a sobrevalorização em até 40%.
O que aconteceu desde a última terça-feira (11) é que o banco decidiu desvalorizar a moeda. Além disso, informou que passará a levar em conta a cotação apontada pelo mercado no dia anterior. Isso levou ao enfraquecimento do yuan, o que gerou turbulência nos mercados financeiros em todo mundo.
Nessa quinta-feira (11), durante uma coletiva de imprensa, o Banco do Povo da China sustentou que tem poder de fogo para defender o yuan de uma desvalorização excessiva. Classificou ainda como "nonsense" analistas que disseram que a instituição permitiria uma desvalorização de até 10% da moeda chinesa em um esforço para ajudar seus exportadores.
"A desvalorização na China gerou ondas de choques globais, com uma acentuada queda nos preços das commodities", avaliou Bernd Berg, estrategista para países emergentes do banco de investimentos francês Sociale Generale. "Os exportadores brasileiros estão especialmente sob pressão. Esperamos uma queda muito maior para o real, e acreditamos que a moeda brasileira vai em direção aos R$ 4 nas próximas semanas", completou.
O analista aposta em uma contração de 2% no PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil em 2015, mas afirma que o cenário pode se deteriorar ainda mais. "Se a situação da China piorar, a economia brasileira pode afundar ainda mais na recessão, e o real se desvalorizar muito além do que R$ 4 em relação ao dólar", afirmou Berg.
Não é a única preocupação. Para Wilber Colmerauer, diretor da Brazil Funding, consultoria baseada em Londres que assessora investidores europeus, a notícia pode ser um primeiro sinal de que o modelo de crescimento chinês começa a se esgotar.
"Foi um primeiro movimento, nada tão dramático. Mas em termos de mudança de postura foi inesperado. É mais um sinal que a economia chinesa não está andando bem", disse Colmerauer. "A China sempre foi um grande comprador de minério de ferro do Brasil, por exemplo, e mesmo antes da desvalorização já estava comprando menos. Isso tende a se aprofundar".
No primeiro semestre do ano, o Brasil vendeu US$ 2,9 bilhões em minério de ferro para a China, um valor 55,8% menor do que no mesmo período do ano passado, segundo o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior).
Na avaliação do banco Credit Suisse, a desvalorização é má notícia tanto para os países emergentes quanto para os desenvolvidos. "[A desvalorização] continua a enfraquecer os países emergentes e a piorar os mercados de trabalho nas economias desenvolvidas", afirma relatório da instituição.
Outros analistas têm uma visão mais otimista da decisão da China. Na avaliação da Standard & Poor's, a desvalorização pode ter sido uma tentativa do país asiático de se adequar às regras do FMI (Fundo Monetário Internacional) para que o yuan seja incluído na moeda da instituição, que serve de referência para trocas entre bancos centrais e que hoje é formada pelas cotações do dólar, euro, iene e libra.
"O argumento que a China está enfraquecendo sua moeda para estimular exportações não nos parece convincente", afirmou o economista-chefe para Ásia e Pacífico da agência de classificação de riscos, Paul Gruenwald. "As vendas externas são mais em função da demanda externa, e a taxa de câmbio tem papel secundário. Não há razão para essa relação ter mudado", completou.
No longo prazo, a decisão da China de desvalorizar sua moeda é vista com otimismo por acadêmicos como James Laurenceson, especialista em economia chinesa da Universidade de Tecnologia de Sydney.
"Isso não é somente desvalorizar a moeda, é ter uma taxa de câmbio mais flexível. E um câmbio mais flexível para a segunda maior economia do mundo é algo positivo, já que isso corrige a valor artificial do yuan e estimulará exportações. Isso contribuirá para uma estabilidade econômica maior do país, o que é bom para grandes parceiros globais da China, como o Brasil".
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